O caminho do meio

O livro “O doador de memórias” da escritora Lois Lowry retrata um sonho de consumo: vivermos num mundo sem conflitos, sem guerras, sem dores. Em contrapartida, também somos privados de todos os outros sentimentos e emoções genuínos. O contexto desse mundo ideal leva ao empate entre as polaridades bem e mal, alegria e tristeza, colorido e preto e branco. Resultado: uma vida estável, pacata e previsível. Não por acaso, esse livro vendeu mais de 11 milhões de exemplares e ganhou uma versão nas telas do cinema.

A ideia é atraente, sem dúvida, e parece tocar no calcanhar de Aquiles da sociedade. Nosso desejo em vivermos somente o lado bom da vida, somente o bônus e não o ônus… É claro que é uma delícia viver o bom, esse não é o problema. A questão é quando negamos o outro lado: as dores e dificuldades inerentes a vida.

Adoro a expressão “nem tanto ao mar, nem tanto a terra”… O pensamento oriental enfatiza que busquemos o caminho do meio, do equilíbrio. Será possível encontrar essa medida?

Existem alguns recursos que podem nos auxiliar a encontrarmos um jeito de viver a vida de maneira mais integral, considerando os dois lados da mesma moeda. Brené Brown, pesquisadora americana, escreveu o livro “A arte da imperfeição” e sugere que “somente quando tivermos coragem suficiente para explorar a escuridão, descobriremos o poder infinito da nossa luz”.

A poesia do roqueiro Lulu Santos pode não ser uma medida, mas pode ser uma boa lente para enxergarmos o nosso mundo real composto por alegrias, medos, desejos, desigualdades… “Não existiria som se não houvesse o silêncio; não haveria luz se não fosse a escuridão; a vida é mesmo assim: dia e noite, não e sim”.